Investigação da Polícia Federal alcança nomes ligados à política de Mato Grosso enquanto União Brasil e Republicanos enfrentam rearranjo interno em ano eleitoral.
A Operação Heritage passou a produzir efeitos que ultrapassam o campo policial e atingem diretamente a estrutura política de Mato Grosso. Em meio às investigações da Polícia Federal sobre operações financeiras relacionadas ao acordo de R$ 308,1 milhões entre o Estado e a Oi, o governador Otaviano Pivetta decidiu retirar Mauro Carvalho do comando da Casa Civil e colocar Rogério Gallo no posto. A mudança ocorre justamente quando os partidos que formam a base política do governo enfrentam disputas internas e precisam reorganizar suas estratégias para as eleições de 2026.
A troca foi anunciada nesta terça-feira (11) e coloca Gallo novamente no centro da articulação política do Palácio Paiaguás. Carvalho aparece entre os investigados na Operação Heritage, mas nega participação nas tratativas questionadas pela investigação e afirma que não recebeu benefícios relacionados ao negócio. (EN)
A investigação, por si só, não significa culpa. A própria decisão que autorizou as medidas da operação não estabelece condenação dos envolvidos. O que existe é uma apuração sobre movimentações financeiras e possíveis conexões entre diferentes agentes e empresas.
Investigação muda ambiente político
O ponto mais sensível da Heritage está na tentativa de reconstruir o caminho percorrido por recursos relacionados ao acordo com a Oi.
O negócio envolveu aproximadamente R$ 308,1 milhões. A negociação foi defendida pelo Governo de Mato Grosso como uma solução legal para encerrar uma disputa e evitar prejuízos maiores ao Estado.
Com o avanço da investigação, porém, a discussão ganhou outra dimensão: além da validade do acordo, as autoridades passaram a examinar o que ocorreu posteriormente com os recursos.
O MT é Notícia destaca que a decisão do ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, autorizou medidas investigativas abrangentes, incluindo quebras de sigilos bancário e fiscal relacionadas a 85 pessoas e empresas. A medida não significa que todos os alvos tenham cometido crimes, mas indica que o STF considerou haver elementos suficientes para aprofundar a investigação.
Mauro Carvalho deixa a principal engrenagem política
A Casa Civil é uma das estruturas mais estratégicas do Executivo estadual porque concentra a articulação do governo com Assembleia Legislativa, partidos, prefeitos e demais instituições.
Carvalho havia retornado ao cargo no início do governo Pivetta. Em abril, o próprio governador havia destacado a experiência e a confiança no empresário para conduzir a articulação política do Estado.
A saída agora acontece em circunstâncias completamente diferentes.
O substituto, Rogério Gallo, tem experiência no núcleo administrativo do governo. Ex-secretário de Fazenda, ele já integrou a estrutura de confiança do grupo político que comandou Mato Grosso nos últimos anos.
A escolha também reduz a necessidade de uma adaptação imediata: Gallo conhece a máquina estadual e já ocupou posições estratégicas na administração.
União Brasil e Republicanos entram em zona de turbulência
A repercussão da Heritage não se limita ao governo.
A investigação ocorre em um momento no qual União Brasil e Republicanos estão diretamente envolvidos nas articulações para a sucessão estadual.
Os dois partidos fazem parte do campo político que discute a continuidade do projeto atualmente liderado por Pivetta.
Com a proximidade das eleições, qualquer alteração na composição do núcleo de poder ganha peso adicional. Uma investigação envolvendo pessoas próximas ao grupo pode gerar pressão, cobranças internas e necessidade de reposicionamento.
O cenário também é agravado pela disputa sobre candidaturas e alianças para o Governo e o Senado.
O que a investigação ainda precisa responder
O principal ponto em aberto é financeiro.
As autoridades precisam determinar se as operações identificadas na Heritage possuem justificativas econômicas legítimas ou se foram utilizadas para ocultar origem, destino ou beneficiários dos recursos.
Essa resposta depende do avanço da investigação.
A decisão judicial que autorizou as medidas não equivale a uma sentença e não estabelece responsabilidade criminal definitiva. Os investigados continuam protegidos pela presunção de inocência e têm direito à defesa.
A crise agora é também política
A mudança na Casa Civil mostra como uma investigação pode produzir consequências antes mesmo da conclusão do inquérito.
No caso de Mato Grosso, a Heritage chega justamente quando o grupo de Pivetta precisa consolidar alianças e apresentar estabilidade administrativa.
A entrada de Gallo representa uma tentativa de preservar a articulação do governo enquanto as investigações avançam.
No campo político, porém, a pergunta passa a ser inevitável: até que ponto a operação será apenas uma investigação financeira e até que ponto poderá alterar o equilíbrio de forças da eleição de 2026?
A resposta dependerá tanto dos próximos passos da Polícia Federal quanto da capacidade do grupo governista de separar a investigação criminal das disputas eleitorais que já estão em andamento.