Governo boliviano prevê duas unidades policiais de elite, com treinamento de instrutores estrangeiros, enquanto amplia cooperação de segurança com o Brasil
O governo da Bolívia anunciou a criação de duas unidades policiais de elite destinadas a reforçar a segurança em regiões próximas à fronteira com o Brasil, incluindo a área de San Matías, na divisa com Mato Grosso.
A medida foi anunciada pelo ministro de Governo boliviano, Marco Antonio Oviedo, e prevê unidades formadas por policiais com treinamento especializado e participação de instrutores estrangeiros. Segundo o governo boliviano, a iniciativa está relacionada ao enfrentamento do crime organizado e ao reforço da atuação policial nas regiões de fronteira.
Uma das unidades deverá atuar na região de San Ignacio de Velasco e San Matías, enquanto a outra está prevista para Santa Ana del Yacuma, no departamento de Beni.
Os policiais selecionados deverão ter concluído o curso Garras del Valor, uma formação especializada da Polícia Boliviana. O governo informou ainda que haverá cursos de aperfeiçoamento com instrutores estrangeiros.
Apoio dos Estados Unidos
A participação dos Estados Unidos foi mencionada pelo governo de Rodrigo Paz como parte da cooperação internacional. Segundo Oviedo, autoridades bolivianas trataram do assunto durante contatos realizados com representantes norte-americanos.
Em junho, a Chancelaria boliviana havia informado a assinatura de um acordo de cooperação com os Estados Unidos envolvendo US$ 20 milhões para capacitação, cooperação técnica e equipamentos destinados à segurança pública e ao combate ao crime organizado.
Entretanto, há uma ressalva importante: não foi encontrada confirmação oficial de que esses US$ 20 milhões sejam destinados especificamente às novas unidades anunciadas agora. Também não havia, até a publicação da reportagem consultada, manifestação pública do Departamento de Estado ou da Embaixada dos Estados Unidos confirmando os detalhes do novo projeto.
Fronteira com Mato Grosso entra no plano
A região de San Matías, próxima a Cáceres, aparece como um dos pontos estratégicos da nova política de segurança boliviana.
A Polícia Federal brasileira já registrou recentemente operações envolvendo a região. Em agosto, dois brasileiros foram identificados após abordagem de policiais bolivianos em San Matías. Um deles possuía dois mandados de prisão em aberto, por furto e homicídio, enquanto o outro tinha restrição migratória para entrar na Bolívia. Os dois foram posteriormente entregues às autoridades brasileiras em La Curicha, na linha de fronteira com Cáceres.
A Bolívia também anunciou a estratégia Fronteiras Seguras, que prevê maior integração entre as polícias dos dois países, com compartilhamento de informações e operações conjuntas.
O governo boliviano aponta San Matías, Cobija, Guayaramerín e Puerto Suárez entre os corredores utilizados pelo tráfico de drogas e afirma haver disputa entre organizações criminosas brasileiras. Essas afirmações são atribuídas às autoridades bolivianas e integram a justificativa apresentada pelo governo para o reforço da segurança na região.
Militarização é medida diferente
Outro ponto importante é que o anúncio das unidades policiais não deve ser confundido com a mobilização das Forças Armadas bolivianas.
Em setembro, após uma sequência de assassinatos em San Ignacio de Velasco, o governo boliviano também anunciou o envio de policiais e unidades especiais das Forças Armadas para a região.
As informações disponíveis, porém, indicam que os instrutores estrangeiros estão relacionados às unidades policiais, e não a um programa de treinamento de militares bolivianos por parte dos Estados Unidos.
O próprio governo boliviano apresentou versões diferentes sobre a estrutura e a localização das unidades ao longo das últimas semanas. Por isso, ainda não estão definidos publicamente todos os detalhes sobre número de agentes, custos, prazo de implantação e estrutura definitiva.
Frase foco: Bolívia anuncia forças especiais para reforçar segurança na fronteira com Mato Grosso