Movimentações ocorreram entre janeiro e outubro de 2025, segundo investigação citada em decisão do STJ; polícia também identificou créditos milionários que não aparecem da mesma forma nos registros públicos de remuneração.
A Polícia Federal identificou 150 saques em dinheiro vivo que totalizaram R$ 15.645.500 em contas bancárias de Sérgio Ricardo de Almeida, presidente afastado do Tribunal de Contas do Estado de Mato Grosso (TCE-MT), entre janeiro e outubro de 2025. Segundo informações publicadas pelo Única News com base em decisão do Superior Tribunal de Justiça (STJ), 64 retiradas foram realizadas diretamente no caixa bancário, somando R$ 15.474.500, enquanto outras 86 ocorreram em terminais de autoatendimento. As movimentações integram a investigação que apura suspeitas de pagamentos irregulares e circulação de recursos vinculados ao tribunal.
Os dados foram divulgados pelo Única News, a partir de informações da investigação e de decisão do ministro Og Fernandes, do STJ.
O caso integra a Operação Tomada de Contas, que apura suspeitas de irregularidades envolvendo pagamentos a conselheiros, servidores e particulares ligados ao TCE-MT. A investigação busca esclarecer a origem dos recursos, a justificativa para as transferências e os saques e o eventual papel de cada pessoa citada.
Os valores e as movimentações descritos nos documentos policiais representam elementos investigativos. Não equivalem, por si só, a uma condenação criminal.
Saques em espécie e movimentações bancárias
Do total de R$ 15,645 milhões em retiradas apontadas pela investigação, a maior parte foi sacada diretamente no caixa das instituições financeiras. Os outros 86 saques foram feitos em terminais de autoatendimento.
A Polícia Federal também identificou retiradas recorrentes de quantias elevadas e operações precedidas de provisionamento de numerário, procedimento pelo qual uma agência é avisada antecipadamente de que precisará disponibilizar determinado valor em espécie.
A existência de saques em dinheiro não configura, isoladamente, uma irregularidade. O ponto investigado é o contexto em que essas operações ocorreram, a origem dos recursos, a compatibilidade com os registros financeiros e a eventual relação com pagamentos considerados suspeitos.
O levantamento procura estabelecer se o dinheiro retirado das contas estava relacionado a valores recebidos por meio de ordens bancárias e rubricas utilizadas pelo tribunal.
Créditos milionários sob análise
Além dos saques, a investigação identificou créditos que teriam somado aproximadamente R$ 15,4 milhões nas contas do conselheiro em menos de dez meses, segundo a reportagem.
Desse total, cerca de R$ 4,3 milhões teriam sido processados por meio de uma rubrica destinada a pagamentos a fornecedores.
A diferença entre os valores identificados nos extratos bancários e os registros divulgados no Portal da Transparência é um dos pontos centrais do caso. Conforme os dados reproduzidos pelo Única News, os créditos bancários chegavam a aproximadamente R$ 15,4 milhões, enquanto os registros públicos consultados apontavam cerca de R$ 288,5 mil no período analisado.
Essa discrepância exige análise documental para esclarecer a natureza de cada lançamento, a classificação contábil utilizada e a eventual existência de pagamentos que não correspondam à remuneração ordinária.
O fato de uma quantia aparecer em uma conta bancária e não estar identificada da mesma forma em um portal público não permite concluir automaticamente que houve crime. É necessário examinar a origem, a finalidade, a autorização e a documentação de cada operação.
PF investiga possível estrutura de movimentação de recursos
De acordo com a investigação citada na decisão do STJ, Sérgio Ricardo seria o responsável por liderar uma estrutura de operadores financeiros destinada a converter em dinheiro vivo recursos provenientes dos cofres do tribunal.
A hipótese investigativa envolve pagamentos, transferências, retiradas em espécie e participação de outras pessoas na movimentação dos valores. A polícia procura reconstruir o caminho percorrido pelo dinheiro e determinar se as operações estavam relacionadas a pagamentos irregulares.
A apuração também busca esclarecer o papel de servidores, assessores e particulares que aparecem nos registros financeiros ou nas imagens de movimentações bancárias.
A identificação de saques sucessivos pode ajudar a reconstruir a circulação do dinheiro, mas a comprovação de um esquema criminoso depende do conjunto de evidências e da demonstração de vínculo entre as operações e os fatos investigados.
Operação Tomada de Contas amplia investigação sobre o TCE-MT
A Operação Tomada de Contas levou ao cumprimento de medidas cautelares contra integrantes e pessoas ligadas ao tribunal, incluindo prisões e afastamentos de funções públicas, conforme as decisões judiciais divulgadas.
O caso também envolve apurações sobre pagamentos a outros conselheiros e servidores, além de movimentações financeiras atribuídas a assessores e pessoas próximas aos investigados.
A análise dos extratos, das ordens bancárias, dos registros de fornecedores e das imagens de segurança é parte do trabalho destinado a esclarecer a dinâmica das operações.
Em investigação dessa natureza, é necessário distinguir pagamentos formalmente autorizados, verbas eventualmente reconhecidas como devidas e valores cuja origem ou finalidade não esteja suficientemente esclarecida. Essa distinção depende da documentação financeira e das decisões das autoridades competentes.
O que ainda precisa ser esclarecido
Entre os pontos que permanecem sob apuração estão a justificativa para os créditos identificados, a finalidade dos saques, a correspondência entre os lançamentos bancários e os registros públicos e a eventual participação de terceiros na movimentação dos recursos.
Também é necessário conhecer as explicações apresentadas pelas defesas e o andamento das medidas judiciais relacionadas ao caso.
A investigação não autoriza concluir, apenas com base nos valores movimentados, que todos os recursos foram desviados ou que cada saque representou uma operação criminosa.
O esclarecimento definitivo dependerá da análise das provas, da manifestação dos envolvidos e do julgamento dos fatos pelas instâncias competentes.