Documentos citados na investigação indicam mudanças nos valores recebidos pelo genro de José Carlos Novelli e por um assessor casado com uma prima do conselheiro a partir de setembro de 2025; polícia apura possível favorecimento e movimentação de recursos.
A Polícia Federal investiga pagamentos realizados pelo Tribunal de Contas do Estado de Mato Grosso (TCE-MT) a dois servidores ligados à família do conselheiro José Carlos Novelli. Segundo reportagem do Fatos de Mato Grosso, o genro do conselheiro, Vitor Turri Romano, e o assessor técnico Márcio Antônio Silvério, apontado como marido de uma prima de Novelli, passaram a receber valores em lotes de ordens bancárias semelhantes aos utilizados para pagamentos ao próprio conselheiro a partir de setembro de 2025. A investigação também identificou aumento expressivo nos valores destinados aos dois, levantando suspeitas de favorecimento e possível utilização de contas para a circulação de recursos.
Os dados foram divulgados pelo Fatos de Mato Grosso, com base em elementos da investigação da Operação Tomada de Contas.
A reportagem informa que José Carlos Novelli recebeu R$ 8.874.885,75 do tribunal entre janeiro e outubro de 2025. Desse total, aproximadamente R$ 7,34 milhões teriam sido pagos fora do dia regular de salário, por meio de ordens bancárias avulsas, conforme a análise policial citada na publicação.
A apuração busca esclarecer a natureza dos pagamentos, sua justificativa administrativa e a relação entre as movimentações do conselheiro e as quantias recebidas por pessoas próximas a ele.
Pagamentos a Vitor Romano aumentaram em setembro
Vitor Turri Romano, genro de Novelli, ocupa uma função de chefia de gabinete ligada à comissão presidida pelo conselheiro, segundo a reportagem.
Até agosto de 2025, ele recebia aproximadamente R$ 80 mil por mês. Em setembro, o total teria aumentado para R$ 325,7 mil.
Entre as movimentações descritas, uma ordem bancária de 3 de setembro teria dividido o pagamento em duas transferências para contas diferentes, de R$ 60.046,99 e R$ 60.278,39. Depois, foram registradas transferências de R$ 120.016,34 em 22 de setembro e R$ 120.093,45 em 22 de outubro.
A Polícia Federal apontou a existência de parcelas adicionais de aproximadamente R$ 120 mil e levantou a hipótese de duplicidade nos pagamentos. No período analisado, Vitor teria recebido cerca de R$ 1,07 milhão, conforme os dados reproduzidos pela publicação.
A análise deverá esclarecer se os valores correspondiam a verbas legalmente devidas, pagamentos por serviços efetivamente prestados ou operações sem justificativa adequada.
O parentesco com o conselheiro também entrou na apuração. Segundo a reportagem, a PF citou informações disponíveis em fontes abertas e uma dedicatória na dissertação de mestrado de Novelli para sustentar a relação familiar.
A polícia utilizou o contexto para levantar a hipótese de possível nepotismo velado, mas a conclusão depende da análise das regras aplicáveis, das funções exercidas e da natureza dos pagamentos.
Assessor também passou a receber valores elevados
O segundo nome destacado é Márcio Antônio Silvério, assessor técnico do Ministério Público de Contas e apontado pela reportagem como marido de uma prima de Novelli.
Até agosto de 2025, ele recebia parcelas fixas de aproximadamente R$ 11 mil sob uma rubrica relacionada a fornecedores, além da remuneração ordinária.
Em setembro, o total teria subido para cerca de R$ 320,4 mil, distribuídos em quatro ordens bancárias. Em outubro, foi registrado outro pagamento de aproximadamente R$ 100,2 mil.
A investigação chama atenção para o fato de que parte dessas movimentações ocorreu nos mesmos lotes bancários utilizados para pagamentos ao conselheiro e ao genro dele.
A coincidência temporal e operacional foi considerada relevante pelos investigadores, que procuram esclarecer se as contas dos servidores eram utilizadas exclusivamente para receber valores próprios ou se também serviam para a circulação de recursos destinados a terceiros.
A existência de pagamentos elevados, entretanto, não basta para comprovar irregularidade. É necessário examinar a documentação administrativa, a natureza das verbas, a justificativa dos lançamentos e a eventual relação com os recursos investigados.
Investigação também examina pagamentos a outros servidores
A reportagem aponta que a apuração alcança outros servidores vinculados à Comissão Permanente de Infraestrutura, Tecnologia e Desestatização do TCE-MT.
Entre os nomes citados está Jocimauro Bento do Carmo, técnico de controle externo que teria recebido aproximadamente R$ 3,03 milhões em 2025, incluindo pagamentos recorrentes por meio de ordens bancárias e rubricas destinadas a fornecedores.
O levantamento também menciona Olavo Lage Filho, secretário de Tecnologia da Informação do tribunal e secretário executivo da comissão. Segundo os dados publicados, ele teria recebido cerca de R$ 888 mil no período, incluindo parcelas classificadas como pagamentos a fornecedores.
A investigação examina se as movimentações tinham justificativa funcional e se os pagamentos estavam relacionados à dinâmica financeira atribuída aos demais investigados.
Os valores e os nomes citados precisam ser analisados individualmente. A inclusão de uma pessoa em uma investigação não significa que todos os seus rendimentos sejam irregulares ou que tenha sido comprovado o cometimento de um crime.
Novelli recebeu milhões em ordens bancárias avulsas
O próprio conselheiro José Carlos Novelli recebeu R$ 8,87 milhões entre janeiro e outubro de 2025, segundo os números apresentados na reportagem.
A Polícia Federal apontou que uma parcela expressiva desse montante foi paga por meio de ordens bancárias avulsas, incluindo operações divididas entre instituições financeiras.
O padrão de pagamentos é um dos elementos utilizados pelos investigadores para comparar as movimentações do conselheiro com as de servidores e pessoas próximas.
Novelli foi afastado do cargo por decisão judicial no contexto da Operação Tomada de Contas. A reportagem informa que a decisão também determinou medidas cautelares contra outros investigados, incluindo afastamentos funcionais, restrições de acesso ao tribunal e entrega de passaportes.
A análise dos pagamentos busca estabelecer se os valores correspondiam a direitos funcionais, verbas autorizadas ou operações potencialmente irregulares. Essa distinção é central para a apuração e exige documentação contábil e administrativa.
O que a investigação ainda precisa esclarecer
Entre as principais questões estão a justificativa dos pagamentos realizados aos servidores, a natureza das parcelas classificadas como fornecimento de serviços e a razão para o aumento dos valores em setembro de 2025.
A Polícia Federal também procura determinar se houve pagamentos em duplicidade e se alguma conta bancária foi utilizada para receber ou repassar recursos destinados a outra pessoa.
As conclusões precisam considerar as explicações dos envolvidos e a documentação que fundamentou cada operação. A existência de parentesco, isoladamente, não comprova favorecimento ilegal; da mesma forma, o pagamento de verbas públicas exige transparência e justificativa compatível com as normas aplicáveis.
A investigação deverá esclarecer se os padrões financeiros identificados representam irregularidades administrativas, indícios de crimes ou pagamentos que possam ser justificados pelos documentos funcionais.