Após acidente em São Paulo, Vitor Piva perdeu a visão e teve a perna direita amputada; caso chama atenção para riscos associados ao uso inadequado de medicamento para insônia
O médico cuiabano Vitor Piva sobreviveu a uma queda do sétimo andar de um prédio em São Paulo, em junho de 2022, depois de consumir uma quantidade de zolpidem superior à que estava habituado a utilizar. O episódio provocou graves sequelas, entre elas a amputação da perna direita e a perda da visão, e hoje é relatado pelo próprio médico como um alerta sobre os riscos do uso inadequado do medicamento.
Segundo o relato publicado pela Baixada Cuiabana, Piva havia retornado de um plantão noturno quando tentou dormir utilizando o medicamento. Como não conseguiu pegar no sono após o primeiro comprimido, afirmou ter tomado outros em sequência.
Ele não sabe precisar a quantidade exata, mas estima que tenha ingerido cerca de quatro comprimidos ou mais.
Depois disso, perdeu a consciência. A próxima lembrança foi já na Unidade de Terapia Intensiva.
Queda provocou consequências permanentes
O médico caiu da sacada de seu apartamento, localizado no sétimo andar.
O impacto provocou múltiplas lesões. Entre as consequências mais graves estavam a amputação da perna direita e a perda da visão.
Piva permaneceu internado durante aproximadamente 90 dias. Durante o período de recuperação, contou com o apoio dos pais e do irmão, que se deslocaram de Cuiabá para acompanhá-lo.
Inicialmente, segundo o depoimento, a polícia chegou a considerar a possibilidade de tentativa de suicídio. O médico, porém, afirmou que não tinha intenção de tirar a própria vida.
Ele relatou que a investigação apontou o uso do zolpidem como fator relacionado ao acidente, considerando efeitos adversos que podem incluir sonambulismo e alterações de comportamento.
Uso do medicamento ganhou atenção das autoridades
O caso individual ocorre em um contexto mais amplo de preocupação com o consumo de zolpidem no Brasil.
Segundo a matéria, dados da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) apontam crescimento expressivo nas vendas do medicamento entre 2018 e 2023.
A própria Anvisa endureceu as regras para o medicamento em 2024.
A partir de agosto daquele ano, medicamentos contendo zolpidem passaram a exigir Notificação de Receita B, de cor azul, independentemente da concentração. A decisão foi tomada diante do aumento de relatos de uso irregular e abusivo e de eventos adversos associados à substância.
A agência também destaca que o zolpidem é indicado para tratamento de insônia de curta duração e que o uso prolongado pode aumentar os riscos de abuso e dependência.
Médico decidiu não utilizar mais o medicamento
Depois do acidente, Piva afirma que nunca mais tomou zolpidem.
O episódio, entretanto, não encerrou sua trajetória profissional.
Após a recuperação, ele realizou curso voltado à elaboração de perícias médicas particulares e passou a atuar nessa área. Também retomou atividades físicas, incluindo musculação e arco e flecha.
O médico afirma que continua convivendo com as consequências do acidente e mantém o desejo de recuperar a visão.
Para ele, a experiência serve como advertência para que o medicamento seja utilizado somente de acordo com orientação médica e sem aumento da dose por conta própria.