Esportistas buscam recursos para bancar viagem e participação em competição nacional; iniciativa expõe desafios enfrentados por atletas fora dos grandes centros
Atletas paralímpicos de Várzea Grande estão recorrendo a uma rifa para levantar recursos e garantir a participação em uma competição nacional realizada em São Paulo. A iniciativa busca ajudar a cobrir despesas relacionadas à viagem e à disputa do campeonato, em uma realidade que ainda representa um dos principais obstáculos para esportistas que precisam viajar para competir fora de Mato Grosso.
A campanha ganhou força justamente em um momento em que o paradesporto várzea-grandense vem ampliando sua presença em competições estaduais e nacionais.
O município mantém um Centro de Referência Paralímpico e tem enviado delegações para torneios realizados em diferentes regiões do país.
Em competições anteriores, atletas da cidade já alcançaram resultados expressivos.
No Campeonato Brasileiro de Atletismo Sub-17 e Sub-20, por exemplo, uma delegação de Várzea Grande participou com 11 competidores, incluindo atletas com deficiência física, visual e intelectual. As provas envolveram corrida, salto e modalidades de arremesso e lançamento.
Viagem é um dos principais obstáculos

A participação em campeonatos nacionais envolve despesas que vão muito além da inscrição.
Passagens, alimentação, hospedagem, transporte e outros custos precisam ser considerados antes de uma delegação deixar Mato Grosso.
Para atletas que não contam com patrocínio suficiente, campanhas de arrecadação e rifas acabam sendo alternativas para viabilizar a viagem.
Essa realidade não é exclusiva do grupo atual.
Em outras ocasiões, atletas de Várzea Grande também recorreram a rifas e mobilizações para conseguir disputar competições fora do Estado.
Um exemplo foi registrado em competições de jiu-jítsu, quando atletas ligados a projetos esportivos relataram dificuldades para custear viagens e inscrições em campeonatos realizados em São Paulo.
Várzea Grande vem ampliando participação no paradesporto
Apesar das dificuldades financeiras, os resultados mostram crescimento da participação de atletas do município.
Em 2026, Várzea Grande participou de competições nacionais e estaduais em diferentes modalidades.
Em abril, atletas ligados ao Centro de Referência participaram de competição nacional de natação paralímpica realizada em São Paulo e conquistaram nove medalhas, sendo cinco de ouro e quatro de prata.
Outro momento importante ocorreu em maio, quando Cuiabá recebeu uma etapa nacional do Meeting Paralímpico.
A competição reuniu 154 atletas com deficiência física, intelectual e visual, mostrando a dimensão do calendário nacional do paradesporto e a existência de oportunidades para atletas mato-grossenses alcançarem índices e posições no ranking brasileiro.
Resultado esportivo depende também de estrutura
A campanha para arrecadar dinheiro para a viagem revela uma contradição enfrentada por muitos atletas.
De um lado, existe uma estrutura esportiva capaz de revelar talentos e colocá-los em competições nacionais.
De outro, a distância entre Mato Grosso e os principais centros esportivos aumenta o custo de participação.
Para quem depende de recursos próprios ou de apoio comunitário, uma competição nacional pode significar um investimento difícil de suportar.
A busca por financiamento também ocorre apesar da existência de políticas públicas destinadas ao desenvolvimento do esporte paralímpico.
Em 2022, por exemplo, a Lei nº 14.294 alterou a distribuição de recursos provenientes das loterias para ampliar o financiamento destinado ao esporte paralímpico.
Na prática, porém, a realidade de cada equipe pode continuar dependendo de recursos complementares para despesas específicas.
Campanha virou parte da preparação
A rifa, portanto, não representa apenas uma tentativa de arrecadar dinheiro.
É também uma mobilização para impedir que atletas que conquistaram espaço em competições tenham de abandonar uma oportunidade por falta de recursos para viajar.
A participação em torneios nacionais é importante para o desenvolvimento técnico dos esportistas e pode abrir caminho para novas competições.
Em Várzea Grande, os resultados recentes indicam que existe uma geração de atletas paralímpicos em formação.
O desafio agora é garantir que esses atletas consigam chegar às pistas, piscinas e demais locais de competição com a mesma estrutura necessária para continuar evoluindo.