Deputado estadual afirma que população está distante da disputa, critica falta de presença dos candidatos nas ruas e prevê segundo turno entre Pivetta e Wellington.
A eleição de 2026 em Mato Grosso tem provocado uma sensação incomum até mesmo entre políticos com décadas de experiência. O deputado estadual Júlio Campos (União Brasil), que acumula 54 anos de trajetória política, classificou a atual campanha como uma das mais estranhas que já acompanhou e apontou uma desmobilização popular que, na avaliação dele, diferencia o pleito de eleições anteriores.
A declaração foi dada em agosto, quando o parlamentar avaliou o cenário estadual e afirmou que ainda não havia percebido nas ruas o mesmo entusiasmo de outras disputas eleitorais.
Segundo Júlio, a campanha atual estaria “sem alma e sem coração”, expressão utilizada para descrever o que considera uma baixa participação popular no debate político.
A avaliação do deputado não significa que não exista disputa eleitoral. O que ele aponta é uma diferença no comportamento do eleitor e na movimentação dos candidatos.
Campanha mais distante das ruas
Durante décadas, campanhas eleitorais em Mato Grosso foram marcadas por comícios, carreatas, reuniões comunitárias, visitas a bairros e intensa circulação dos candidatos.
Esse modelo mudou.
As redes sociais passaram a ocupar uma parte importante da comunicação política, enquanto campanhas tradicionais passaram a concentrar esforços em conteúdos digitais, grupos de mensagens e divulgação segmentada.
Para Júlio Campos, entretanto, a mudança tecnológica não explica completamente a ausência de mobilização que ele percebe.
Na avaliação do parlamentar, os candidatos ainda precisam sair dos ambientes digitais e apresentar suas propostas diretamente à população.
A observação ganha importância porque a eleição de 2026 reúne nomes conhecidos, mas ainda apresenta elevado número de eleitores sem uma decisão consolidada.
Na pesquisa Paraná Pesquisas divulgada em setembro, por exemplo, 49,6% dos entrevistados não souberam ou não opinaram no cenário espontâneo para governador.
Júlio prevê segundo turno
Apesar da avaliação sobre a falta de entusiasmo, Júlio Campos considera que a disputa pelo Governo de Mato Grosso deve chegar ao segundo turno.
A projeção feita pelo deputado coloca Otaviano Pivetta e Wellington Fagundes como os dois nomes mais competitivos.
Essa previsão, feita antes da nova rodada do Paraná Pesquisas, ganhou novo elemento com a divulgação dos números desta quarta-feira.
O levantamento atual mostra Pivetta com 40,8% e Wellington com 30% no cenário estimulado.
A mesma pesquisa aponta Pivetta com 47,2% em uma eventual disputa direta contra Wellington, que aparece com 38,3%.
Ou seja, o cenário atual reforça a possibilidade de que os dois sejam os protagonistas da fase decisiva, embora a definição oficial dependa do resultado das urnas.
A estranheza apontada por um político histórico
A fala de Júlio Campos precisa ser entendida também a partir de sua própria trajetória.
O parlamentar pertence a uma geração política que acompanhou diferentes transformações eleitorais em Mato Grosso: campanhas presenciais, televisão como principal meio de comunicação, crescimento do rádio, profissionalização do marketing político e, mais recentemente, domínio das redes sociais.
Ele próprio ocupou diferentes cargos públicos e acompanhou campanhas em momentos políticos completamente distintos.
Por isso, quando afirma que nunca viu uma eleição tão estranha, a declaração tem um componente geracional.
O que mudou não foi apenas o comportamento dos candidatos.
O próprio eleitor mudou.
Hoje, a população recebe informações políticas de maneira fragmentada. Um eleitor pode acompanhar um candidato pelo Instagram, outro pelo WhatsApp e ainda consumir informações sobre uma terceira candidatura por vídeos curtos ou canais independentes.
Isso torna mais difícil medir a mobilização política apenas pela quantidade de pessoas presentes em eventos.
Baixa mobilização não significa ausência de voto
Existe, porém, uma diferença entre falta de entusiasmo público e ausência de decisão eleitoral.
O eleitor pode não participar de reuniões, não acompanhar carreatas e não demonstrar interesse em eventos políticos, mas ainda assim votar.
A desmobilização percebida por Júlio também pode refletir uma campanha mais digitalizada.
A própria evolução das pesquisas mostra que o eleitorado ainda está se movimentando.
Em agosto, a Quaest apontava Wellington numericamente na frente de Pivetta. Já o Paraná Pesquisas de setembro mostra o governador com vantagem superior a dez pontos.
Essa diferença reforça a necessidade de cautela antes de transformar uma percepção de rua em diagnóstico definitivo sobre o eleitorado.
Senado pode ter dinâmica diferente
Júlio também destacou que a disputa pelo Senado possui dinâmica própria.
Mato Grosso elegerá dois senadores em 2026, o que faz com que partidos e candidatos possam montar estratégias diferentes daquelas utilizadas para o Governo do Estado.
O eleitor pode votar em dois nomes de grupos políticos distintos.
Isso aumenta a possibilidade de alianças cruzadas e torna a disputa especialmente competitiva.
A pesquisa mais recente do Paraná Pesquisas mostra Mauro Mendes na liderança, com 55%, seguido por Janaina Riva, com 31,5%, e José Medeiros, com 21,4%.
O teste será nas ruas
A avaliação de Júlio Campos expõe uma questão que ultrapassa sua opinião pessoal.
A eleição de 2026 será um teste para saber se a política mato-grossense continuará migrando para ambientes digitais ou se, com a aproximação da votação, os candidatos voltarão a apostar fortemente em atividades presenciais.
Também será necessário observar se a população demonstra maior interesse à medida que a campanha avance.
Por enquanto, a impressão apontada pelo deputado é de uma eleição diferente: menos barulhenta nas ruas, mais fragmentada e com grande parcela do eleitorado ainda sem decisão consolidada.
A nova pesquisa mostra que os números podem mudar rapidamente.
E é justamente por isso que a campanha ainda terá muito trabalho para transformar intenção em voto.