Investigação aponta uso de estruturas financeiras para ocultar origem de recursos e beneficiários de negócio envolvendo a Terrana
O Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) e a Receita Federal deflagraram nesta quinta-feira (24) uma nova etapa das investigações relacionadas à Operação Carbono Oculto, com cumprimento de mandado de busca e apreensão em Várzea Grande. A ação apura uma suposta estrutura financeira criada para ocultar a origem de recursos e os reais beneficiários da aquisição de uma das maiores distribuidoras de combustíveis do país.
A operação, batizada de Crédito Oculto, é coordenada em São Paulo e conta com a participação de órgãos de fiscalização e investigação de sete estados. Ao todo, foram expedidos mandados contra 13 pessoas físicas e 19 empresas, com 26 alvos em São Paulo e um em cada um dos estados de Mato Grosso, Espírito Santo, Goiás, Minas Gerais, Rio de Janeiro e Santa Catarina.
Em Mato Grosso, o alvo está relacionado à estrutura empresarial da Tobras Distribuidora de Combustíveis Ltda., conhecida comercialmente como Terrana, que possui filial em Várzea Grande.
Segundo as investigações, a empresa teria sido adquirida por meio de uma complexa rede de holdings, fundos de investimento, empresas patrimoniais e outras estruturas financeiras que, de acordo com os investigadores, teriam sido utilizadas para dificultar a identificação dos verdadeiros responsáveis pelo negócio.
Empresa de fachada aparece na estrutura
Na filial de Várzea Grande, a composição societária aponta para a Branson Oil (Brasil) Ltda., empresa sediada em Duque de Caxias (RJ).
A Branson integra a chamada Branson Holdings e foi constituída em setembro de 2024. Conforme as informações divulgadas na investigação, a empresa tinha capital social inicial de apenas R$ 1 mil, mas posteriormente passou a participar de operações envolvendo valores milionários.
A apuração indica que estruturas semelhantes foram utilizadas anteriormente para esconder os reais proprietários de uma usina sucroalcooleira localizada no interior paulista.
Um dos pontos investigados envolve aproximadamente R$ 370 milhões em direitos creditórios relacionados à usina. Segundo a Receita Federal, a movimentação teria criado um fluxo financeiro circular, no qual recursos de fundos ligados ao próprio grupo investigado eram utilizados para adquirir cotas de outro fundo, dificultando a identificação dos beneficiários econômicos.
R$ 100 milhões passaram pela usina
A investigação identificou ainda que a usina teria recebido R$ 100 milhões enviados pela organização investigada para financiar a aquisição da distribuidora.
O dinheiro teria passado rapidamente por diferentes contas empresariais e estruturas financeiras antes de chegar à usina. Posteriormente, os recursos foram incorporados a um fundo de investimento criado especificamente para a operação.
A partir daí, teria sido utilizada uma operação envolvendo um Certificado de Depósito Bancário Vinculado (CDBV) e duas Cédulas de Crédito Bancário (CCBs). O mecanismo, segundo os investigadores, permitia afastar formalmente a origem dos recursos dos compradores efetivos da distribuidora.
Outra parte dos recursos teria sido utilizada na aquisição de cotas de um fundo imobiliário, com imóveis previamente transferidos para empresas patrimoniais.
Investigação também alcança mercado financeiro
A apuração não está restrita às empresas do setor de combustíveis. A força-tarefa investiga também a atuação de operadores do mercado financeiro que teriam participado da construção das estruturas utilizadas nas operações.
Segundo a Receita Federal, uma empresa financeira relacionada à aquisição simulada da usina movimentou aproximadamente R$ 11,6 bilhões entre 2021 e 2025. O volume, analisado juntamente com outros elementos reunidos na investigação, levantou suspeitas sobre a utilização de estruturas financeiras para ocultação patrimonial e dissimulação da origem de recursos.
A investigação também aponta que a aquisição da Terrana teria sido feita por meio de uma arquitetura envolvendo bancos, fundos, escritórios de advocacia, holdings e empresas consideradas de fachada pelos investigadores.
Reportagem do UOL, com informações do Estadão, aponta que a aquisição da distribuidora poderia ter alcançado R$ 153 milhões. O mesmo levantamento descreve a participação de diferentes fundos e empresas na operação.
Investigação continua
A Operação Crédito Oculto é tratada como desdobramento da Operação Carbono Oculto, que investiga uma organização suspeita de atuar na lavagem de dinheiro ligada ao setor de combustíveis.
Os elementos reunidos até agora ainda fazem parte de uma investigação. Portanto, as pessoas e empresas citadas como alvos ou relacionadas às operações são consideradas investigadas, não condenadas.
Observação editorial: o valor de R$ 120 milhões presente no título da matéria original não foi confirmado pela nota oficial da Receita Federal consultada. Para esta reportagem, foram priorizados os valores oficialmente divulgados: R$ 100 milhões relacionados ao fluxo identificado e a informação de que a aquisição poderia chegar a R$ 153 milhões.