Carnaval Real em Condomínios Virtuais

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Quando vítimas e réus ocupam pavimentos inteiros, juntos e misturados no condomínio Torre de Babel. O virtuoso cliente ao realizar sua compra virtual perde o direito de ter sempre a razão. A compra virtual ocorre quando se pretende transferir a responsabilidade em um contrato assinado com a rubrica da confiança e da emoção no espaço destinado ao cliente. Um dos conceitos mais difíceis de ser absorvido na cultura brasileira refere-se ao princípio da RESPONSABILIDADE ser INTRANSFERÍVEL.

Caso real, envolvendo três personagens distintos no mesmo cenário.

Nota: Os nomes das empresas envolvidas foram suprimidos pelo fato deste dado em nada alterar ou contribuir para o objetivo que se pretende atingir. As informações foram colhidas em páginas da rede social disponíveis nesta data (30/03/2018).

Cenário

Personagem 1: Representado por um Grupo de Condomínios, os quais tem em comum a contratação de instalação e serviços de portaria remota com uma empresa A. Personagem 2: Empresa A , sem histórico de atuação no segmento de prestação de serviços de sistemas eletrônicos de segurança ou de controle de acessos.

Personagem 3: Empresa B parceira comercial com empresa A, para a qual fornece serviços e tecnologia em sistemas eletrônicos remotos.

Ambiente

Os três personagens se envolvem emocionalmente, pelo encanto da flauta do vendedor, o qual toca as músicas que sereias usam para encantar os incautos homens do mar, quais sejam:

Música 01: Você vai deixar de perder (repetida diversas vezes torna-se verdade). Música 02: Você vai ganhar (encanta com poucas repetições). Música 03: Você é obrigado a fazer (uma única ordem, sem necessidade de repetir).

Como deixarei de perder?

O custo da ociosidade do porteiro lhe será compensado por um serviço automatizado, monitorado, supervisionado e controlado por tecnologias que valorizarão seu empreendimento, com custo significativamente inferior ao que dispende hoje, sem retorno. Um Show de luzes e rótulos atraentes é apresentado aos olhos e mentes dos que participam da Assembleia: Biometria, portas como magia são abertas e fechadas, sem esforço e só para você, qualquer outra pessoa terá que passar pela guarda distante. Deixará de perder 50% do que gasta com o porteiro eternamente. É muito dinheiro.

Como vou ganhar?

Segurança. A palavra mágica que lhe trouxe para morar no condomínio e que tanto lhe encanta. Ao ponto de deixar as portas sociais e de serviços abertas dias e noite. Ganhará mais segurança visto que o porteiro não dormirá mais, o portão de veículos abrirá sem precisar buzinar. Por que será obrigatório?
Carnaval Real em Condomínios Virtuais. Por André de Pauli – Março 2018. andredepauli@msn.com
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Caro síndico. Assembleia é soberana e assim que aprovar terá que cumprir esta determinação. Simples assim.

Os três motivos que levam ao ser humano a por a mão no bolso foi lançado como perfume, entorpecendo ao ponto de deixarem de obedecer ao que recomendam as melhores práticas para o sucesso em uma empreitada, quais sejam:

Consultar e contratar especialista em segurança condominial, que sejam independentes de fornecedores de produtos e/ou serviços, para viabilizar este sonho de consumo e compatibilizar ao perfil e necessidades dos que utilizam de forma continua, 24h por dias em todos os dias do ano.

10 Trabalhos que competem ao Consultor Especializado:

1. Assessorar a alta administração do empreendimento na Reunião de Alinhamento das Expectativas realizada entre os usuários para que seja ratificado o novo modelo de vida no empreendimento. Fundamental para o sucesso do projeto de automatização e onde serão estabelecidas as premissas e restrições que nortearão: a elaboração do projeto, a atualização do manual da segurança do empreendimento, a elaboração do edital de licitação e a elaboração do contrato de prestação de serviços.

2. Enquadrar o subsistema de portaria virtual dentro do Plano de Segurança do Condomínio, eliminando as fragilidades dos processos nos quais deixarão de contar com a presença do fator humano no local.

3. Elaborar o projeto, com respectivo memorial técnico descritivo.

4. Homologar as empresas que participação da concorrência para fornecimento de produtos e serviços. Atividade vital para que as empresas que vierem a participar da concorrência possuam parâmetros e indicadores de qualificações mínimas para atender aos padrões de exigência do cliente final (o empreendimento e seus usuários). Esta atividade é realizada em duas etapas,, quais sejam: Documental, com solicitação e recebimento de dados e informações de cada concorrente e Presencial, com a verificação em campo, tanto das instalações quanto da validação de informações e dados da etapa Documental.

Nota: Nesta fase é que são excluídas empresas que sub-empreitam seus serviços (caso do cenário em foco); empresas sem planos estabelecidos para contingências, como falhas de seus parceiros (caso em foco); empresas de fundo de quintal (literalmente); dentre diversas outras ameaças que poderão colocar em risco de perdas de qualidade de vida (caso em foco), perdas financeiras (caso em foco), prevenção para ações judiciais (caso em foco), etc…

5. Elaborar o edital (também conhecido por RFP – requisitos para fornecimento de proposta).

6. Participar da elaboração do contrato de prestação de serviços, que conterá cláusula de desempenho (SLA1), por exemplo, em três níveis, tais como: inaceitável, tolerável e
1 Do termo em inglês: Service Level Agreement – Acordo do nível de Serviços.
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esperado. A minuta do contrato é parte integrante do processo de licitação. A segurança das informações também é cláusula mandatória.

7. Executar o comissionamento do processo de instalação do sistema; correspondendo ao acompanhamento do início das obras, passando pelo recebimento dos equipamentos para certificar que corresponde ao projeto e ao memorial técnico descritivo, realização dos testes de aceitação das instalações, recebimento da documentação técnica em língua nacional, termos de validade das garantias técnicas e legais, acompanhamento dos treinamentos dos usuários até que seja entregue ao contratado o termo de aceite e assim evidenciando a conclusão do processo de contratação.

8. Atualizar as ferramentas normativas do condomínio, quais sejam: Política de Segurança; Código de Ética e Posturas do Empreendimento; Manual de Segurança – Normas & Procedimentos, Plano para Contingências e o Plano Anual de Manutenções.

9. Realizar periodicamente auditorias de processos seja através de exercícios simulados ou verificações nos registros e relatórios enviados mensalmente pela empresa contratada a prestar serviços no empreendimento.

10. Certificar periodicamente (semestral ou anual, conforme o desempenho – SLA – obtido ao longo da prestação de serviços, medidos e alinhados mensalmente em reuniões entre gestor do cliente e gestor do prestador de serviços) e validar dos indicadores estabelecidos identificados na empresa contratada quando da etapa de homologação.

Enredo e diálogos

No mês de Fevereiro de 2018, em pleno Carnaval (11,12,13 e 14/2), 150 condomínios, com diversas quantidades de torres e unidades autônomas, ficaram reféns de uma interrupção de serviços de Portaria Virtual.

Explicação apresentada pela Empresa A em 16/02/2018 – 15:12h

NOTA OFICIAL EMPRESA A

Informamos aos usuários do sistema A, que a nossa aplicação não sofreu nenhum tipo de ataque cibernético conforme divulgado em alguns condomínios que utilizam o nosso sistema, divulgação essa que vem nos causando inúmeros transtornos. O motivo real da interrupção do serviço nesses condomínios foi a falta de pagamento do sistema por parte da empresa responsável (referindo-se à empresa B), que mesmo após ter sido notificada para tal finalidade não o fez. Estamos à disposição para os esclarecimentos que se fizerem necessários. Empresa A, o seu condomínio inteligente.

Absurdos: Mudança de foco (ataque cibernético) e excesso de egoísmo (nos causando). O cliente não vivenciou nenhum problema? Quem foi contratado para o que? Arrogância e assinam embaixo da incompetência. Em momento algum demonstraram interesse em resolver a crise do cliente. O motivo real foi a incapacidade em resolver uma contingência e, segundo entendem, realizam apenas um “serviço” para cada cliente. Ainda julgam-se um condomínio “inteligente”?
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Diálogos inacreditáveis que seguem.

Cliente X – 17/2 – 10:46h Me desculpe, não se façam de vitimas…. Quando vocês venderam o produto venderam como uma empresa só, as duas partes nos enganaram…. Vocês foram muito irresponsáveis de abandonar os 150 prédios, só não devendo esquecer que vocês são responsáveis solidários pela segurança de todos os prédios… IRRESPONSÁVEIS!!

Resposta empresa A para cliente X – 17/2 – 23:26h Concordamos totalmente com você Arnaldo. É muita irresponsabilidade uma empresa abandonar 150 prédios! Não faz o mínimo sentido! Nós da empresa A pagamos todas as nossas contas em dia, impostos, funcionários e servidores para não deixar os nossos clientes na mão! Isso é o mínimo que se esperar de qualquer empresa. Caso tenha qualquer problema com a empresa que você contratou, sugerimos entrar em contato com a mesma para entender o motivo da interrupção. Se quiser mais detalhes, entre em contato conosco pelo inbox.

Réplica Cliente X – 18/2 – 09:22h Não achem que vcs tb não deixaram os 150 prédio nas mãos, então confessa que vcs tb são irresponsáveis…. Se estavam devendo ou não para vcs (lembre-se que vcs venderam como se fossem uma empresa só) a justiça está ai para resolver isso e mais, já que de fato não é uma empresa só, deveriam ter comunicado a todos os clientes da rescisão de vcs…. Ademais, pergunta p seu advogado que significa “responsabilidade solidária” e quais suas consequências….. Fica a dica….

Tréplica Empresa A – 18/2 – 09:51h Obrigado pelos comentários! Sabemos que trabalha em uma empresa de advocacia e é superexperiente, respeitamos o seu ponto de vista. Apenas pedimos precaução de sua parte ao colocar afirmações inverídicas em nossa página pois elas podem nos causar prejuízo.

Réplica Cliente X – 18/2 – 10:27h Informação inverídica? Qual? 1) No meu contrato faz menção aos seus serviços, portanto venderam como se fosse 1 empresa só 2) vocês rescindiram com seu parceiro sem avisar os clientes (pelo menos o meu condomínio e muitos que tive contato não foram informados), 3) vcs tiveram precaução quando agiram de forma infantil e deixaram 150 condomínio no “escuro” em pleno carnaval?! Portanto me aponte as informações inverídicas….

Tréplica Empresa A – 18/2 – 09:51h Olá Cliente X, entendemos a sua situação e suas dúvidas com relação ao acontecido porém, temos todas as evidências de que agimos de forma correta, ética e profissional. Estamos à disposição para recebê-lo em nossa empresa para esclarecer esses 3 pontos questionados e qualquer dúvida adicional. Se tiver interesse, mande seus dados em mensagem privada que marcaremos uma visita para tirar todas as suas dúvidas! Tenha um ótimo domingo!

Cliente Y – 16/2 – 10:46h Irresponsabilidade das duas partes. A comunicação entre aplicativo (empresa A) e Empresa B deveria estar mais alinhada para evitar esses transtornos gravíssimos a quem contrata portaria virtual.

Resposta empresa A para cliente Y – 17/2 – 23:28h Nós da Empresa A pagamos todas as nossas contas em dia, impostos, funcionários e servidores para não deixar os nossos clientes na mão! Isso é o mínimo que se esperar de
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qualquer empresa. Caso tenha qualquer problema com a empresa que você contratou, sugerimos entrar em contato com a mesma para entender o motivo da interrupção. Se quiser mais detalhes, entre em contato conosco pelo inbox.

Conclusão

A falha na origem, caracterizada pelo descumprimento dos responsáveis pelos condomínios envolvidos em ignorarem as Dez Ações de Melhores Práticas, resultou nos desastres dos carros alegóricos no carnaval de 2018.

Precaução, Planejamento, Medições e Acompanhamento do desempenho exigem esforço e dedicação ou seja: dá trabalho; contudo, o resultado ocorrerá muito próximo do que é o esperado e a tranquilidade virá com confiança na gestão e nunca em pessoas ou contratos.

Engº André de Pauli Consultor de Segurança Empresarial e Condominial.

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