Aplicativos se tornam ferramentas essenciais em condomínios

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Pelo aplicativo, o morador pode autorizar a entrada de visitantes, reservar espaços, fazer reclamações, entre outros Foto: Guilherme Pinto / Agência O Globo

Síndicos profissionais e moradores da Barra apontam as vantagens dos apps que aglutinam serviços diversos na administração de residenciais

 

Embora seja síndico profissional e ajude a gerir a vida de três mil moradores em oito condomínios, Luis Marques se considera um ilustre desconhecido nesses lugares.

Isso se deve, em parte, porque entre ele e a vida dos seus clientes existe um aplicativo. O quase anonimato foi intensificado há dois anos, quando uma ferramenta capaz de ajudar a administrar a rotina foi implantada no Jardins do Recreio, residencial que administra e onde mora com a mulher e as três filhas. “A maioria não sabe quem eu sou”, explica Marques, cujo nome está em todos os recados entregues via app e nos já obsoletos papéis de quadros de aviso. Mas não há lamento em sua fala e, sim, empolgação com as possibilidades desse potente aglutinador de funções.

A praticidade na palma da mão é o motivo do entusiasmo, compartilhado com outros síndicos ouvidos pela equipe. Usando um aplicativo que gere a vida comum dos condôminos, com poucos toques sobre a tela o morador pode autorizar a entrada de visitantes, reservar espaços, fazer reclamações, ter acesso às atas das assembleias e receber confirmações sobre a chegada de correspondência ou alertas de chuva, por exemplo.

Recebi há pouco tempo uma mensagem de uma moradora reclamando que o dreno do apartamento de cima está molhando o dela. Ela mandou foto. Imagina se faz isso num grupo de WhatsApp?

Já criaria uma indisposição, e a gestão precisa mediar conflito e não jogar gasolina na fogueira. O aplicativo ajuda, porque você interfere sem expor quem reclamou. Por isso, não participamos mais de nenhum grupo. O principal canal é o aplicativo. E, desde que o adotamos, sentimos que a animosidade diminuiu muito diz Marques, que optou pelo aplicativo Vida de Síndico após pesquisas e testes.

Há muito outros no mercado, com funções que podem ser aprimoradas ou desenvolvidas a partir das necessidades de cada espaço. A Associação Bosque Marapendi (ABM) e o Alfa Barra 2, por exemplo, têm aplicativos específicos para informar moradores a respeito do sistema de transporte. O Jardins do Recreio, com 400 unidades divididas em cinco blocos, tem programação de cinema e aulas esporádicas de dança e ginástica que podem ser consultadas pelo programa. Além disso, novos moradores precisam se cadastrar a fim de agendar a mudança e não há outra forma de reservar espaços como a churrasqueira senão pelo aplicativo. Por lá, o tempo das anotações no caderno de reclamações e das reservas presenciais acabou.

Para manter-se invisível e ainda assim dar conta dos múltiplos serviços, Marques fica on-line de segunda a sábado até meia-noite fora isso, a administração tem três funcionários que o auxiliam nas demandas do app no horário comercial. É um caminho sem volta, diz ele.

A vida pessoal fica uma loucura, mas a família entende. É tipo médico, né? Quando você assume um compromisso, não tem jeito. Eu cuido do patrimônio das pessoas. Antes, o síndico era solicitado para resolver problemas pontuais entre condôminos em reuniões. Isso não existe mais. Meu compromisso é responder a todas as mensagens em 48 horas, ou, no máximo, 72, conta. Na semana da chuva, fui até as 3h, enviando comunicados e fazendo a contingência para acalmar o morador. Não tivemos nenhum prejuízo.

Para Fábio Pinto, a disponibilização das contas de luz, água e gás no aplicativo seria um facilitador Foto: Guilherme Pinto / Agência O Globo

A palavra praticidade vem à tona no discurso da advogada Mirela Távora, moradora do Jardins, que elogia sobretudo a possibilidade de autorizar facilmente a entrada de visitantes. O policial militar Fábio Pinto, morador do Residencial Portal da Barra, compartilha a percepção, mas sugere um incremento:

Talvez ele pudesse consolidar e disponibilizar as contas de luz, água e gás também. Seria um facilitador, um ganho no tempo e na segurança da informação.

Alexandre Itaboraí é síndico profissional do Residencial Portal da Barra Foto: Guilherme Pinto / Agência O Globo

Síndico profissional do Portal da Barra, Alexandre Itaboraí vislumbra ainda o momento em que votações de assembleias possam ser realizadas pela ferramenta, o que dependerá de legislação externa. O condomínio tem 448 unidades e dois blocos. Por enquanto, ele usa o app da Condomob para enquetes e, assim, antecipa resultados que só podem ser efetivados presencialmente — na última, os moradores escolheram entre reformar ou substituir os elevadores, numa participação considerada ainda incipiente.

 Acho que o caminho natural é vincular o aplicativo a uma portaria virtual, o que faria com que o escritório não precisasse ficar no condomínio e, sem dúvida, isso implicaria numa redução do quadro de funcionários — diz Itaboraí, comparando a gerência antes e depois do app, implementado há um ano e meio. — Está melhor agora. Claro, se a gestão é falha, o aplicativo se torna um inimigo, já que mostra essa debilidade. Quando o morador está irritado, ele fala com o primeiro que encontra. O aplicativo desfaz a “rádio-corredor” e evita a propagação de mal-entendidos.

Itaboraí descarta a ideia de que o excesso de tecnologia pode tornar as relações entre os moradores impessoais.

A sociedade já está acostumada ao processo menos pessoal, mas como isso se dá parte de cada gestor. Não podemos esquecer que, apesar de a administração ser uma área técnica, lida com aspectos humanos diversos — defende ele, que pouco depois de posar para as fotos foi interpelado por uma moradora com queixas sobre o mau funcionamento do sensor de luz no andar onde mora.

 

 

Ferramenta que se transforma

A combinação de segurança, controle e transparência fez com que Pedro Cantisano, síndico profissional do Le Parc, defendesse o uso de um aplicativo no condomínio da Barra. A proposta foi aprovada em novembro pelo conselho e, na etapa seguinte, a informatização de arquivos foi iniciada.

Após três meses de processo, o app da Villa Fácil, startup escolhida, começou a ganhar as telas de celulares dos mais de dois mil moradores. É o estágio intermediário de uma dinâmica a ser aperfeiçoada. O foco, mais uma vez, é facilitar a vida do morador e otimizar a gestão.

É preciso perceber as especificidades de cada lugar. Temos aqui uma equipe de manutenção predial que faz pequenos reparos nos apartamentos. Então, o morador faz uma ordem de serviço pelo aplicativo e acompanha o pedido.

Após seis meses, posso constatar que, das 500 solicitações, mais da metade foi de eletricidade. Com isso em mãos, é possível dimensionar meu quadro e requisitar mais eletricistas do que bombeiros hidráulicos, por exemplo — ressalta Cantisano, há sete anos e meio à frente do condomínio, que tem 766 apartamentos, 13 blocos e quase 200 funcionários, diretos e indiretos.

Vagner Lessa (de pé), da empresa Villa Fácil, com Pedro Cantisano, síndico profissional do Le Parc Foto: Guilherme Pinto / Agência O Globo

A junção de serviços numa só tela parece saltar aos olhos de quem tem contato com o aplicativo pela primeira vez. Na atual fase, os residentes do Le Parc já recebem um aviso quando uma correspondência registrada é entregue. Em outro tópico, é possível anunciar a venda de um produto ou serviço, cada morador pode fazer isso uma vez por mês. Nesse caso, a praticidade é também uma blindagem contra a insegurança.

Colocar o anúncio de venda de carro e deixar uma pessoa estranha entrar aqui pode ser um perigo. Se você vende aqui dentro, onde todo mundo se conhece, está mais seguro, e quem compra sabe que você é um morador e que o carro é bem tratado, destaca o síndico.

O único empecilho que pode travar a disseminação do aplicativo é a memória dos telefones celulares, frisa ele. Por isso, o conteúdo também está disponível por meio de um site.

Vagner Lessa responde pelo setor comercial do Villa Fácil Foto: Guilherme Pinto / Agência O Globo

Para Vagner Lessa, responsável pelo setor comercial da Villa Fácil, a adoção de aplicativos pelos grandes condomínios é inevitável. Há seis anos trabalhando diretamente no setor, ele identifica um boom dos apps condominiais, especialmente na Zona Oeste, região que concentra 80% dos seus clientes.

Estamos recebendo muitas solicitações em Campo Grande, área muito explorada pelos condomínios. A Zona Oeste é, tradicionalmente, onde o público absorve essa necessidade e me parece ser mais conectado. Toda a minha parte de divulgação e marketing é voltada para a região.

Estamos numa transição, num momento em que essa metamorfose está se concretizando por aqui. Por isso é importante acompanhar o processo, capacitar síndicos e moradores.

Atualmente, o Villa Fácil funciona em 60 condomínios sendo 50 na Barra e está em fase de implementação em outros 48. A empresa também atua em Belo Horizonte. O custo mensal do serviço varia de acordo com o tamanho do empreendimento, mas a média fica entre R$ 2 e R$ 3 por apartamento, segundo ele. Os síndicos Luis Marques e Alexandre Itaboraí informaram que a despesa com seus aplicativos é de aproximadamente um real por unidade.

 


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Fonte: O Globo

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